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O Memorial da Engenharia em Pernambuco

Maurício Renato Pina Moreira*


Rua do Hospício, 371. Este é um endereço emblemático para a engenharia pernambucana. E este é um momento histórico para todos os que aqui estão presentes.

Graças ao idealismo do Professor Álvaro Camello, da dedicação de um grupo de abnegados colaboradores e da firme determinação do Magnífico Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Prof. Amaro Lins, estamos aqui instalando o Memorial da Engenharia em Pernambuco. Sonho acalentado há muitos anos, este Memorial, pelo que pesquisamos, não tem congênere no País, mostrando mais uma vez o espírito de vanguarda da gente pernambucana. Este ato guarda um elevado simbolismo porque, neste venerável recinto, funcionou o Salão Nobre ou a Sala da Congregação da Escola de Engenharia de Pernambuco, palco de importantes decisões acadêmicas e administrativas, ligadas ao ensino da Engenharia em Pernambuco.
Aí, nesse preciso local de comando onde Vossa Magnificência, Prof. Amaro Lins, preside esta solenidade, tiveram assento os Professores Manoel Antônio de Moraes Rego, Napoleão Albuquerque, Eurico Matos, Aurino José Duarte, Arnaldo Rodrigues Barbalho, Newton da Silva Maia e Ivan de Albuquerque Loureiro, diretores desta Instituição durante o período de 1945 a 1966.

Foi uma luta árdua para alcançarmos o objetivo hoje comemorado. Diversas reuniões ocorreram. Inúmeras dificuldades foram vencidas. Quem chegasse a este prédio há vinte dias atrás, certamente sairia daqui desolado. O Grupo do Memorial conseguiu uma verba com o Reitor, o que possibilitou a recuperação parcial deste salão nobre, da coberta (que tinha vários pontos de vazamento), de uma sala (que está servindo de apoio para esta solenidade), de dois sanitários e dos corredores de acesso. E aqui estamos juntos, para testemunharmos e comemorarmos esta conquista, não apenas física mas também institucional, com a criação deste Memorial.
É de justiça destacar o apoio que tivemos, em todos os instantes, do Magnífico Reitor, Engenheiro e Professor Amaro Lins que, já em agosto de 2006, por meio da Portaria nº 1378, de 03 de agosto de 2006, designou os Professores Anísio Brasileiro de Freitas Dourado (então Pró-Reitor de Extensão), Mauricio Renato Pina Moreira (do Departamento de Engenharia Civil), Denis Bernardes (do Departamento de Serviço Social) e Antonio Carlos Maranhão de Aguiar (do Departamento de Engenharia Mecânica), para comporem uma Comissão Especial de Estudo sobre o antigo prédio da Escola de Engenharia de Pernambuco.

Essa Comissão apresentou o seu relatório no dia 02 de março de 2007, no qual, após descrever a situação do prédio, sob os aspectos físico e institucional, justificou a criação do Memorial da Engenharia em Pernambuco, com os seguintes objetivos principais: resgatar a história da Engenharia em Pernambuco, como registro para as futuras gerações; preservar o patrimônio histórico e as memórias passadas e presentes; criar espaço para as atividades de extensão, formadoras de conhecimento técnico-científico e de cidadania; promover espaço para debates de importantes temas ligados à Engenharia em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil; servir de espaço para a valorização profissional do engenheiro. A proposta de criação do Memorial recebeu manifestação de apoio de diversas entidades, a exemplo do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Pernambuco – CREA/PE, do Clube de Engenharia de Pernambuco, do Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco, do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Pernambuco – SINDUSCON/PE, da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco – ADEMI-PE, do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva – SINAENCO, da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos do Vale do São Francisco – ASSEA, da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica – Núcleo Nordeste – ABMS, do Instituto Pernambucano de Avaliações e Perícias de Engenharia – IPEAPE, da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Pernambuco – AEAPE, da Associação dos Profissionais de Engenharia Eletrônica e Telemática – APEET, da Associação Nordestino Brasileira de Engenheiros de Minas – ANBEM, da Associação Pernambucana de Engenheiros Florestais – APEEF, da Associação dos Engenheiros de Pesca de Pernambuco – AEP-PE, do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB-PE, da Associação dos Engenheiros de Segurança no Trabalho de Pernambuco – AESPE e da Associação Profissional dos Geólogos de Pernambuco – AGP.

Em decorrência do relatório apresentado pela Comissão, o Magnífico Reitor, através da Portaria de Pessoal nº 1479, de 10 de julho de 2007, designou-me responsável pela coordenação dos estudos e elaboração do projeto de implantação do Memorial da Engenharia em Pernambuco.

Para que se possa compreender o alcance e o significado deste momento, convem recordar, com muito orgulho, a história e o glorioso passado desta mais do que centenária instituição, a Escola de Engenharia de Pernambuco, por onde passaram notáveis gerações de engenheiros. Criada em 03 de junho de 1895, há portanto exatos 114 anos, por meio da lei estadual nº 84, de iniciativa do então Governador José Alexandre Barbosa Lima, a Escola de Engenharia de Pernambuco veio a ser cronologicamente a quarta instituição de Engenharia do País e a primeira de todo o Norte/Nordeste. Antes dela, apenas a Escola Politécnica do Rio de Janeiro (atual Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro), a Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – USP, esta última apenas um ano antes da nossa.

A criação da Escola de Engenharia foi motivada pelo notável progresso experimentado pelo Estado de Pernambuco com a construção de ferrovias e particularmente pela cidade do Recife na segunda metade do século passado e ainda pela falta de engenheiros nacionais para atender a essa demanda. Com efeito, além dos ingleses, vários engenheiros franceses, como Louis Vauthier, Morel e Liauthier, entre outros, prestaram serviços relevantes ao desenvolvimento do Recife durante aquele período.

A Escola de Engenharia de Pernambuco iniciou o seu funcionamento em março de 1896 e, pela qualidade do ensino que já então oferecia, foi equiparada em 1898, através de um decreto federal, à Escola Politécnica do Rio de Janeiro, considerada, à época, escola padrão no ensino de Engenharia.

Para surpresa geral e a pretexto de economia para o erário público, a Escola de Engenharia veio a ser extinta em 1904, pelo fato de contrariar interesses do Governador de então. Conta a história que os estudantes haviam se manifestado contra a nomeação de um político situacionista para catedrático da Escola, por não possuir conhecimentos para tal e por ter uma vida privada pouco recomendável. Além disso, conta ainda a história, os professores, conhecidos pelo rigor e austeridade que imprimiam ao ensino, não atenderam a pedidos políticos para aprovação de um aluno, o que ensejou a insensata medida adotada pelo Governador. Encontrando-se no meio de um semestre letivo, os alunos da Escola, aflitos, então apelaram ao Conselheiro Rosa e Silva, que apenas conseguiu prorrogar o seu funcionamento até o final do ano escolar. Seguiu-se, então, uma das páginas mais memoráveis desta instituição, assim destacada pelo eminente e saudoso Professor Newton Maia em sua publicação “Apontamentos para a História da Escola de Engenharia de Pernambuco”: “Ante perspectiva tão sombria para o Estado de Pernambuco, mesmo para o nordeste brasileiro, de se ver fechar um estabelecimento de ensino superior, único no gênero em todo o norte do país, sério pelas suas diretrizes normais e útil, indispensável mesmo, para o seu progresso tecnológico, um grupo de doze dos mais dedicados mestres, idealistas, tomou a iniciativa de fundar outra Escola de Engenharia, associando-se a outros elementos do magistério e a profissionais de engenharia, de renome já firmado.” Foi então criada a Escola Livre de Engenharia de Pernambuco, sem a percepção de qualquer remuneração pelos professores e com o seu custeio proveniente apenas de taxas e emolumentos pagos pelos alunos.

Em 1911, a educação no País foi seriamente afetada pela malfadada Lei Rivadavia Correia, que acabou com a oficialização do ensino, permitindo que qualquer escola ou pseudo-escola pudesse ensinar o que bem quisesse e concedesse diplomas a pessoas sem o devido preparo. Essa situação, que causou evidentes prejuízos a esta Escola, persistiu até 1915. Nesse mesmo ano, a Escola Livre de Engenharia foi equiparada, assim como houvera sido sua antecessora, à Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Durante o período de 1896 a 1918, a Escola de Engenharia funcionou em dois prédios, hoje não mais existentes: o primeiro, junto à Praça da República, ao lado do Palácio do Campo das Princesas, às margens do rio Capibaribe e de frente para o Teatro Santa Isabel. O segundo, em um prédio onde funcionou a 7ª Região Militar, na esquina da rua do Príncipe com a Rua do Hospício.

Em 1917, assumiu a direção da Escola o Professor Manoel Antonio de Moraes Rego, então Prefeito do Recife, que conseguiu do Governador Manoel Borba a doação de um casarão localizado à Rua do Hospício, nº 371, exatamente neste local, onde a Escola de Engenharia veio a se instalar e nele permaneceu por um longo tempo. Conseguiu ainda o Professor Moraes Rego que o Governo do Estado destinasse uma subvenção para permitir a remuneração aos professores, os quais se encontravam trabalhando gratuitamente desde 1905, ou seja, durante 12 anos.

Em 1918, graças à interferência do ainda Governador Manoel Borba e através de um decreto federal, a Escola Livre de Engenharia passou a ter os seus cursos de Engenharia Civil, Mecânica, Elétrica e Industrial reconhecidos em todo o território nacional.

Em 1920, a Escola passou novamente a oferecer o curso de Engenharia Agronômica, em face da extinção da Escola de Agronomia de Socorro, e o curso de Química Industrial.

Em 1925, a instituição voltou a ser denominada Escola de Engenharia de Pernambuco e, em 1934, foi oficializada, na gestão do Interventor Federal Carlos de Lima Cavalcanti, ficando o Executivo estadual com as atribuições de aprovar o orçamento anual da Escola e nomear o seu diretor.

Em 1943, foi totalmente demolido o antigo casarão da Rua do Hospício e construído no mesmo local este prédio, que foi inaugurado festivamente no dia 26 de janeiro de 1945. Por sinal, um detalhe que me foi ontem repassado pelo amigo Paulo Dutra. É que o Dr. José Joaquim Dias Fernandes foi concluinte da turma de 1944. Essa turma adiou a sua colação de grau para 1945, visando realizá-la neste salão nobre logo após a conclusão das obras do novo prédio, o que de fato ocorreu. O Prof. Moraes Rego, personalidade legendária da engenharia pernambucana, era à época o Diretor da Escola que, por sinal, foi por ele dirigida durante 22 anos, de 1917 a 1930 e de 1939 a 1948.

No governo do Marechal Eurico Dutra, foi criada em 1946 a Universidade do Recife, incorporando, entre outras, a Escola de Engenharia e a Faculdade de Medicina, ambas na qualidade de entidades privadas. Em 1949, essas duas faculdades foram federalizadas. Nesse período e durante a metade da década de 50, foram contratados professores portugueses e franceses, resultando em um importante intercâmbio cultural para a Escola. As décadas de 50 e 60 foram marcadas por diversas manifestações estudantis, de conotações acadêmicas ou políticas, com a forte participação dos alunos da Escola de Engenharia.

O ano de 1967 marcou a transferência da Escola para o campus da Cidade Universitária, onde até hoje permanece. Este prédio, de tantas histórias e tradições, permaneceu abandonado, sendo ocupado por um período pela Faculdade de Administração, pelo Diretório Central dos Estudantes e, a partir de 1999, pelo Ginásio Pernambucano, em face das reformas que estavam sendo realizadas naquele educandário, situado na Rua da Aurora. Mesmo com o término das reformas, uma parte do Ginásio Pernambucano aqui permaneceu e ainda hoje permanece.

O Memorial da Engenharia em Pernambuco será sediado neste prédio, que se trata, como vimos, de um monumento de grande significado para a história da Engenharia no Estado. Se o local é emblemático, esta data não é menos. Comemoramos hoje os 114 anos da Escola de Engenharia de Pernambuco, como comemoramos anteontem os 90 anos do Clube de Engenharia de Pernambuco, entidade criada dentro da Escola Livre de Engenharia de Pernambuco.

O Memorial da Engenharia em Pernambuco será uma entidade de natureza não apenas histórica, voltada à preservação da memória da Engenharia, mas também educativa e cultural. Nesta instituição, reverenciaremos orgulhosos o passado, mas teremos as nossas atenções também voltadas para, vivendo o presente, cuidarmos do futuro. Ao lado do Museu da Engenharia, do Centro Cultural da Engenharia, do Centro de Estudo e Pesquisa da História da Engenharia em Pernambuco, teremos um núcleo de capacitação, com auditórios e salas de aula, visando promover a atualização dos profissionais e o debate de temas relevantes de interesse para o desenvolvimento do Estado, da Região e do País. Não imaginamos que esta seja uma instituição sem vida. Ao contrário, imaginamos contar com o apoio e a participação das diversas entidades ligadas à Engenharia no Estado.

O dia seguinte ou o dia de amanhã do Memorial foi cuidadosamente estudado e planejado. Daremos passos firmes e seguros para que sejam alcançados os objetivos traçados. Estaremos de braços abertos a todos quantos queiram se engajar neste movimento. O Protocolo de Cooperação que será assinado dentro de alguns instantes entre a UFPE, a UPE, a UFRPE, a UNICAP, a UNIVASF, o Clube de Engenharia e o CREA formalizará a criação do Memorial.

A última solenidade ocorrida neste salão foi no dia 17 de dezembro de 1966, por ocasião da colação de grau da última turma de engenheiros que aqui estudou. Mesmo passados 42 anos e meio de abandono, o tempo não conseguiu destruir a imponência do local. Necessitamos dar início a um grande trabalho de recuperação deste prédio. Observem que os cupins estão destruindo este belo revestimento de madeira. O segundo pavimento está interditado, por absoluta falta de condições físicas de funcionamento. Necessitamos do apoio de órgãos públicos e empresas privadas interessadas na preservação do patrimônio histórico e cultural. Este prédio é um relicário da engenharia pernambucana e brasileira.

Ao final, rendemos as nossas reverências ao Professor Álvaro Alves Camello, idealizador deste empreendimento. Os nossos sinceros agradecimentos ao Magnífico Reitor, Prof. Amaro Henrique Pessoa Lins, pelo apoio manifestado desde o primeiro instante em que estivemos juntos para tratar do assunto; aos Pró-Reitores Profª Solange Coutinho e Prof. Anísio Brasileiro de Freitas Dourado; ao Diretor do Centro de Tecnologia e Geociências – CTG da Universidade Federal de Pernambuco, Prof. Edmilson Santos de Lima; ao Vice-Diretor do CTG, Prof. Antonio Celso Dantas Antonino; ao Diretor de Extensão da PROEXT, Prof. Ivan Melo; ao Presidente do CREA/PE, Eng. José Mário de Araújo Cavalcanti; ao Presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco, Eng. Alexandre José Ferreira dos Santos; ao Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco – FIEPE, Eng. Jorge Wicks Corte Real, a todos pela inestimável colaboração prestada. Agradecemos também aos amigos e funcionários do CREA/PE, ao estafe da Universidade Federal de Pernambuco, na pessoa de Conceição, à Prefeitura da Cidade Universitária, na pessoa da Engenheira Rogéria Patrícia Renaux de Vasconcelos. De modo especial, a todos os componentes do Grupo do Memorial, constituído por professores, ex-professores e engenheiros, na sua maioria ex-alunos desta casa, que estiveram ao nosso lado em todos os momentos, nas inúmeras reuniões que foram realizadas com o objetivo de alcançarmos esta vitória. Gostaria de nominá-los um a um, mas a exigüidade de tempo e o risco de omitir involuntariamente qualquer um deles, me fazem homenageá-los e agradecê-los coletivamente.

Concluo estas palavras com uma das frases que o grande poeta português Fernando Pessoa escolheu para demonstrar a todos os seres humanos o poder dos sonhos: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce».

Muito obrigado!.

DISCURSO PROFERIDO NO DIA 03 DE JUNHO DE 2009 PELO ENGENHEIRO MAURICIO RENATO PINA MOREIRA, POR OCASIÃO DA INSTALAÇÃO DO MEMORIAL DA ENGENHARIA EM PERNAMBUCO.

(*) Maurício Renato Pina Moreira é o coordenador do Memorial da Engenharia em Pernambuco