A Rodada Moxotó a a busca pelo desenvolvimento

(*) Alexandre Santos

Minhas senhoras e meus senhores

Tendo como objetivo final a realização do desenvolvimento social, sem renunciar a seu dever de influenciar decisões políticas, o Clube de Engenharia de Pernambuco vem se empenhando em discutir caminhos capazes de levar ao crescimento econômico.  Nunca é demais lembrar que, por conta da extensa costa, durante muito tempo foi afirmado ser o Brasil um ‘país marítimo’. Aliada à menor distância em relação às capitais, esta, talvez, seja a razão de muitos governantes, inclusive de Estados com estreita faixa costeira, como Pernambuco, dedicarem maior atenção às áreas banhadas pelo oceano.

A larga penetração do território nacional no coração da América do Sul, no entanto, indica que o Brasil é, ao mesmo tempo, marítimo e continental.

Esta condição contraria alguns paradigmas e justifica a necessidade do crescimento avançar continente à dentro, melhor distribuindo riquezas, em comportamento que muitos chamam de ‘interiorização do desenvolvimento’.

Em Pernambuco, como acontece na maior parte dos Estados costeiros, o mapa do crescimento concentra a maior parte dos empreendimentos na faixa litorânea, especialmente no Grande Recife e em Suape.

Este fenômeno superalimenta a concentração, sendo causa e efeito de muitas mazelas, pois, no embalo do magnetismo advindo das economias de escala, atrai gentes e negócios de todos os lugares, provocando crescimento desenfreado – um inchaço que degrada a qualidade de vida de todos.

Decidido a colaborar com a interiorização do crescimento, oferecendo contribuição para a melhoria da qualidade de vida, o Clube de Engenharia de Pernambuco e suas parceiras estendeu o olhar para o interior, procurando, nele descobrir a melhor forma alavancar núcleos de crescimento econômico.

Neste momento, este é objetivo do Seminário Permanente de Desenvolvimento – um ciclo de estudos criado em junho de 2005 para discutir temas de interesse local, estadual, regional e nacional com autoridades dos setores público e privado em colóquios, palestras, seminários, jornadas e rodadas. A partir do ano passado, intensificando a contribuição para a interiorização do crescimento econômico, o Seminário Permanente de Desenvolvimento passou a dedicar maior atenção a regiões específicas do sertão pernambucano, realizando as chamadas Rodadas – um formato que concentra o foco das sessões sobre um determinado tema ou região de modo a aproveitar o conhecimento de especialistas e autoridades para criar ambiência propícia à promoção de alternativas, remoção de óbices que dificultam o crescimento econômico e à produção de documentos capazes de orientar ações que permitam a evolução do status quo a patamares superiores.
Agora, nestes dias 03 e 04 de junho, animado com o sucesso alcançado com a Rodada Araripe realizada em setembro do ano passado em Araripina, o Clube de Engenharia de Pernambuco renova sua parceria histórica com o Centro de Estudos do Nordeste (Cenor) e Associações dos Geólogos e dos Engenheiros de Pesca, Florestais, Agrônomos e de Segurança do Trabalho de Pernambuco para realizar a Rodada Moxotó – um ciclo de debates que concentrará a atenção sobre a microrregião do Moxotó, localizada no semi-árido do sertão do Estado de Pernambuco composta pelos municípios de Arcoverde, Betânia, Custódia, Ibimirim, Inajá, Manari e Sertânia.

Com população de cerca de 190 mil habitantes, irregularmente distribuídos em 8.929 Km2, área equivalente a 10.9% do território estadual, o Moxotó sofre os rigores do clima semi-árido em regime de temperaturas elevadas com chuvas escassas e mal distribuídas.
A despeito dos rios temporários e vegetação xerófila (aroeira, mandacaru, jatobá, angico, etc.), a região integra as bacias dos rios Pajeú e Moxotó, sendo marcada por bacias sedimentares dotadas de grande quantidade de água subterrânea, notadamente nos municípios de Inajá e Ibimirim.

A economia do Moxotó apresenta atividades agropecuárias – caprinovinocultura, agricultura irrigada, lavoura de subsistência e apicultura, industriais – alimentos, têxteis, vestuário e construção civil – e serviços, especialmente em Arcoverde e Custódia.
Sendo região de relativa escassez de recursos naturais, ganha destaque o aqüífero Jatobá com reserva permanente de 100 milhões de m³, que abastece os municípios de Arcoverde, Ibimirim e Sertânia.

Com a presença de campos de pouso em Arcoverde, Custódia e Ibimirim, os principais acessos à região são as estradas federais BR 232 e BR 420, através das quais há o abastecimento e o escoamento das riquezas nelas produzidas.

Na esteira de sérios problemas econômicos, o Moxotó registra grandes carências e problemas sociais nas áreas de renda, saúde e educação. O problema habitacional é gravíssimo, com inexistente ou inadequado sistema de saneamento.
Além de insuficiente, o abastecimento de água potável é comprometido pela poluição dos mananciais. Apenas 31,2% dos domicílios são atendidos pela rede de abastecimento d’água. Nas áreas rurais, não há rede de distribuição d’água nem de tratamento de esgotos.
Vale ressaltar a perda de cobertura vegetal e degradação e erosão dos solos provocados pelo emprego de tecnologias inadequadas no âmbito da exploração agrícola e pecuária. Não é a toa que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Região é de apenas 0,633, sendo inferior ao apresentado pelo Estado de Pernambuco (0,692).


O grande potencial econômico do Moxotó
Em paralelo a este quadro de dificuldades, a região do Moxotó apresenta grande potencial econômico, especialmente em função da existência de 25 mil hectares de terras aptas à irrigação, condições edafoclimáticas propícias à agricultura, principalmente a fruticultura, espelho d'água capaz de ampliar produção de pescado;
eqüidistância a grandes centros urbanos (Recife, Campina Grande, João Pessoa, Maceió, Caruaru), importantes redes logísticas e população apta ao trabalho.
Técnicos experimentados recomendam que a Rodada Moxotó concentre atenção na regularização fundiária, reconversão do sistema de irrigação com adoção de métodos mais eficientes, implantação de assistência técnica permanente, oferta de crédito agrícola e definição de canais de comercialização.

Seguindo modelo já aplicado com sucesso em outras oportunidades, a partir de eixos temáticos apurados pela comissão organizadora com a participação de técnicos oriundos e radicados no Moxotó

a saber:
A) REVITALIZAÇÃO DO RIO MOXOTÓ E PERÍMETRO IRRIGADO;
B) APROVEITAMENTO DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS DA BACIA DO RIO MOXOTÓ (AQÜIFERO JATOBÁ);
C) APROVEITAMENTO DAS ÁGUAS DO AÇUDE POÇO DA CRUZ; E
D) INSUFICIÊNCIA DO APOIO AO CRESCIMENTO ECONÔMICO

– a Rodada busca a superação dos gargalos que atrapalham da conversão do magnífico potencial econômico da região em riqueza efetiva.

Conforme veremos nestes dois dias, a Rodada Moxotó inverte a lógica dos seminários tradicionais, pois, ao invés de discutir problemas que todos já sabem quais são, [o seminário] procura, com a participação das entidades e empresas responsáveis pelas diversas áreas problemáticas, discutir e buscar soluções para a superação de gargalos que dificultam o crescimento, criando ambiência propícia à promoção de alternativas, remoção de óbices e produção de documentos capazes de orientar ações que estimulem o crescimento.

Nesta perspectiva, a Rodada Moxotó representa uma grande oportunidade para as entidades convidadas – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); Banco do Brasil; Companhia Elétrica de Pernambuco (Celpe); Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa); Departamento de Estradas e Rodovias (DER-PE); Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS); Caixa Econômica Federal (CEF); Banco do Nordeste do Brasil (BNB); Companhia Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Instituto de Pesquisa Agropecuária (IPA); Programa Estadual de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Prorural); Secretárias estaduais de Recursos Hídricos (SRH), de Agricultura e de Tecnologia e Meio Ambiente; Ministério da Integração Nacional; Agência Nacional de Águas (ANA); Ministério da Pesca; Agência Estadual de Águas e Meio Ambiente; Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE); Agência de Desenvolvimento (AD / DIPER); Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA); Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM); Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - reafirmarem compromisso com o crescimento do País e impulsionarem a efetiva interiorização do crescimento.

Que o crescimento econômico aconteça e, em sua esteira, o povo possa desfrutar o desenvolvimento pleno que merece por direito natural.

Que a Rodada Moxotó consiga produzir os efeitos esperados e revele a boa intenção dos homens públicos do País!

 

Discurso proferido em 03 de junho de 2011, por ocasião da abertura da Rodada Moxotó do Seminário Permanente de Desenvolvimento, no auditório do Colégio Diocesano Cardeal Arcoverde, em Arcoverde.

(*) Alexandre Santos é presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco.